Correio Central
Voltar Notícia publicada em 16/06/2019

Ouro Preto do Oeste completa 38 anos, conheça a história do alemão visionário que mais investiu no Município

O autodidata Carl Fischer construiu fortuna no Brasil e pelo mundo, mas em Ouro Preto do Oeste seu empreendimento sucumbiu.

Edmilson Rodrigues - O Município de Ouro Preto do Oeste foi criado pela lei nº 6.921, sancionado no dia 16 de junho de 1981 pelo presidente João Baptista, e neste domingo 38 anos de emancipação político-administrativa.

Com uma população estimada em 36.340 habitantes, segundo dados do IBGE de 2018, o município foi transformado em Estância Turística por força do Projeto de Lei Complementar nº 664 de 07 maio de 2012, aprovado Na Assembleia Legislativa do Estado e institucionalizado pelo ex-prefeito Alex Testoni em dezembro de 2013.

Em todas as ocasiões da data da criação do município, são publicados remendos da história do projeto Integrado de Colonização Ouro Preto (Pic-Ouro Preto) no início da década de 70 que atraiu milhares de famílias para a região que compunha na época uma grande dimensão de terras onde hoje se situam os municípios de Ouro Preto do Oeste, Mirante da Serra, Nova União, Vale do Paraíso, Teixeirópolis e Urupá.

No ano de 1977 a Vila Ouro Preto recebeu a visita do empresário alemão Carl Fischer, que chegou ao Brasil em 1932 e formou um império que cresceu com a criação em 1963 da Citrosuco Paulista que se tornou uma das maiores indústrias de suco de laranja do mundo. Fischer também fundou a companhia de navegação marítima Aliança com frota de mais de 20 navios, estaleiro próprio e terminais em Wilmington nos EUA e Toyohashy, no Japão.   

Em 1977, um ano após adquirir uma segunda fábrica em Limeira, Carl Fischer veio para Rondônia e com sua visão além do tempo adquiriu um lote com 3 mil hectares de terras documentadas no miolo do Projeto Pic-Ouro Preto, entre Ouro Preto do Oeste e Nova União, que pertenciam a família dos “cabeludos” e não estava sendo demarcada para as famílias que chegavam à região.

Carl Fischer voltou para o Rio de Janeiro, e logo retornou a Ouro Preto do Oeste e adquiriu mais cinco lotes grandes e duas áreas menores, perfazendo mais de 21 mil hectares de terras. O alemão dividiu as terras e criou a Aninga Comércio Indústria e Agricultura, a Fischer Rondônia Agropecuária (Firasa) e uma parte dos lotes foi colocado em nome da empresa Citrosuco Rondônia.

Exploração de madeira da fazenda foi a primeira atividade do Grupo Fischer na região

Segundo um ex-gerente do Grupo Fischer em Rondônia, a ideia de Carl Fischer à época era de reservar ao menos a metade das terras e mantê-las intactas, e o restante seria explorado industrialmente. O ex-deputado federal e ex-adminsitrador de Ji-Paraná e Ouro Preto Assis Canuto foi o funcionário nº 1 registrado pelo grupo Fischer, mas quem veio do Rio de Janeiro para administrar os negócios foi o peruano Gabriel Inácio Escudero.  

Carl Fischer trouxe o peruano Gabriel Escudero do Rio de Janeiro para Ouro Preto

O Grupo Fischer iniciou então o plantio de cacau, café e de seringa e abriu uma pequena área de pasto. Na Vila Ouro Preto, a Aninga Comércio Indústria e Agricultura instalou diversos equipamentos de beneficiamento de arroz, de sistema de beneficiamento de cacau e café e de madeira que foram os maiores e mais modernos de Rondônia durante os anos seguintes.

Carl Fischer também trouxe para Ouro Preto do Oeste a primeira serraria 100% automática no Estado em sua sede na cidade, o investimento foi milionário à época, porém a produção de cacau, arroz e café não atendia a demanda dos equipamentos.

Madeireira 100% automática de OPO foi a primeira de Rondônia à época

Quando o grupo Fischer começou a empacotar os primeiros produtos industrializados a cidade de Ouro Preto do Oeste recebeu a visita do ministro do Interior Mario David Andreazza, que recebeu das mãos do administrador do distrito Ailton Casales Teixeira um pacote de arroz da produção que seria enviado para São Paulo.  

 

Na década 80 Carl Fischer já era um homem influente no país. Em 1984, quando o presidente João Figueiredo veio a Ouro Preto do Oeste inaugurar o asfaltamento da BR-364 o alemão fazia parte da comitiva presidencial, juntamente com o governador Jorge Teixeira e o empresário Assis Gurgacz, da Eucatur.

IMAGEM DA CAPA: Ailton Casales entrega pacote de arroz ao ministro Mario Andreazza

O Grupo Fischer expandiu além de Ouro Preto do Oeste e instalou galpões de armazenamento de grãos em Ariquemes, Cacoal, Ji-Paraná, Porto Velho e em Vilhena. O armazém da Aninga em Cacoal foi repassado a investidores sem o consentimento da empresa pelo prefeito, à época Josino Brito, e o local se transformou depois na fábrica da Coca-Cola.

Em Rondônia, o empreendimento de Carl Fischer no início dos anos 80 também se estendeu a navegação, ele pagou uma empresa para mapear o curso do Rio Madeira de Porto Velho a Manaus e, em sociedade com outro alemão, criou a Ronasa – Rondônia Navegação S.A com o propósito de fazer navegação de cabotagem até Manaus e Belém do Pará.     

Na esteira dos galpões de armazenamento na capital e no interior do Estado, Carl Fischer abriu uma representação de distribuição da Cerpa – Cervejaria Paraense, cuja matriz funcionava em Porto Velho e também foi ativada em Ouro Preto do Oeste.

A distribuidora da Cervejaria Cerpa em Rondônia foi montada por Carl Fischer, OPO tinha uma filial

A partir da inauguração da BR-364 Carl Fischer iniciou a criação de gado de corte em Ouro Preto do Oeste na área da Fazenda Aninga que chegou a ter 5 mil bois.

No mesmo ano, a fazenda sofreu as primeiras invasões por grileiros de terras e vieram os conflitos armados e muitas mortes na área que hoje é limitada ao município de Nova União.

Em 1986, um capataz da Fazenda foi morto durante um conflito, e o dono do Grupo Fischer começou a desistir do sonho inicial de criar na área o polo de produção de citricultura, de alimentos e de carne.

Gado de corte foi trazido para Ouro Preto após a inaguração da BR-364

Em 1995, a Fazenda Aninga foi invadida de vez, foi determinada a reintegração de posse que não foi cumprida. Já havia ocorrido o massacre na Fazenda Santa Elina, em Corumbiara na Região do Cone Sul, não havia estrutura policial na região e os mais de 21 mil hectares de terras foram repassados ao movimento de trabalhadores rurais sem terra.

Carl Fischer, que quando veio em 1977 a Ouro Preto do Oeste conhecer as terras que ia comprar, vistoriou as terras da Fazenda Aninga com seus prepostos montados em mulas, decidiu então jogar a toalha e negociou a propriedade com o Incra, pelo preço de pouco mais de R$ 5,8 milhões, sendo R$ 5 milhões em TDA (Títulos da Dívida Agrária) e o restante recebeu em dinheiro.

As primeiras invasões da Fazenda Aninga gerou muitos conflitos e mortes na área

Hoje na delimitação da área existem os assentamentos rurais Margarida Alves e Palmares. Com o fim dos investimentos do Grupo Fischer na cidade de Ouro Preto, findaram-se também os pousos e decolagens de pequenas aeronaves na pista que existia na cidade, e o local hoje é um trecho da Avenida Gonçalves Dias do populoso Bairro Jardim Aeroporto.    

Carl Fischer faleceu no dia 25 de janeiro de 1988 aos 79 anos de ataque cardíaco, em Singapura na Indonésia quando fazia a sua viagem dos sonhos onde pretendia conhecer a Índia e ampliar a venda de sucos para a China.    

Fonte: www.correiocentral.com.br