Correio Central

Jogos de azar: São Paulo com 1.828 atendimentos e Rondônia com 1.295 lideram atendimentos em casos de ludopatia

Em uma cidade no interior de Rondônia, localizada no eixo da BR-364, a reportagem identificou M. T.P, uma mulher de 34 anos, casada, mãe de quatro filhos, evangélica, destaque no coral da sua congregação. Ela comunicou ao marido que trabalha em área rural, distante de casa, que havia sofrido um golpe ao navegar pela rede social, e que estelionatários tinham ‘roubado’ a quantia de aproximadamente R$ 8 mil creditados na conta bancária do seu companheiro para pagamento de despesas pontuais, já vencidas.

O marido descobriu quando retornou à cidade que era mentira, a mulher admitiu seu vício em jogos e em pouco tempo veio o desfecho: ambos foram parar na Delegacia Civil após uma briga de luta corporal na frente dos filhos, medidas protetivas foram determinadas, e o casamento acabou. “É outra característica da ludopatia, o indivíduo acaba criando situações mentirosas, omitindo essa compulsão por jogo, gerando segredos relacionado ao comportamento de jogo e mentir sobre ele”, pontua o médico Didimo Dinis Maltezo, profissional há mais de 20 anos em Rondônia, dos quais 13 dedicados a psiquiatria com pós-graduação. (Imagem ilustrativa).

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O Ministério da Saúde, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), registrou 3.892 atendimentos em casos de ludopatia de 2022 a setembro de 2025. Segundo o levantamento, São Paulo com 1.828 e Rondônia com 1295 registros, são os Estados que lideram as ocorrências.

Esses vícios têm aumentado consideravelmente ano a ano devido as casas de apostas online. Considerando que o estado de São Paulo tem uma população de mais de 46 milhões de habitantes, e Rondônia e Rondônia não soma 1,8 milhão de habitantes, esse índice ascende um alerta para o estado do Norte.  

Os levantamentos são relatados ao Ministério da Saúde pelos Estados, porém nem todos os anos das ocorrências nas unidades federativas foram catalogados. Além disso, há casos de ludopatia que podem ter sido classificados como ansiedade ou depressão.

Ou seja, o número total pode ser ainda maior do que o informado. Até setembro deste ano, foram notificados 407 casos, com os maiores números em São Paulo (141), Rondônia (36) e Minas Gerais (22).

CRESCE A DEMANDA EM CLÍNICAS E NO CAPS

O jogo patológico, também conhecido como ludomania, vício em jogo, é um transtorno psiquiátrico que se caracteriza por episódios repetitivos de apostas em jogos de azar, mesmo diante de consequências negativas. O (a) indivíduo perde o controle sobre o jogo, não conseguindo limitar o tempo e o dinheiro utilizados, mesmo quando está perdendo.

O psiquiatra Didimo Dinis Maltezo relatou como tem sido a frequência de pacientes que procuram ajuda em clínicas particulares e no CAPS, e destaca que é um assunto de muita relevância, que tem se tornado frequente e comum nos dias de hoje. “É um transtorno a ludopatia, conhecido também como transtorno do jogo, que é uma condição psicológica caracterizada por uma compulsão por jogos de azar, como casinos, loterias, apostas esportivas, e entre outros”.

Médico Didimo Dinis Maltezo, com pós-graduação em Psquiatria, atua em clínicas e no CAPS em Ouro Preto do Oeste, e relata o aumento de pacientes acometidos de ludopatia

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O médico psiquiatra explica que as consequências negativas dessa atividade de jogar é mantida apesar de problemas pessoais, financeiros e sociais e leva indivíduos a dívidas, divórcio, perda do emprego, cometimento de crimes, além de vínculos com outros transtornos de saúde mental.

“Os principais sintomas desse transtorno são uma perda de controle. Ou seja: é uma incapacidade de controlar o comportamento de jogo, mesmo sabendo que isso gera consequências negativas. É uma dependência, aquela necessidade de jogar cada vez mais a mesma emoção. Problemas financeiros são uma outra característica, eu diria que o mais impactante, gerando dificuldades financeiras”.

O psiquiatra reforça que os problemas financeiros é uma outra característica nefasta. “Eu diria que o mais impactante, gerando dificuldades financeiras devido ao excesso de jogo, a esse controle emocional de jogar cada vez mais na tentativa de recuperar aquilo que já foi perdido durante esse processo do transtorno”.

Outra característica importante é o impacto na vida do indivíduo “Por exemplo gerando problemas num ambiente de trabalho, na família e nos relacionamentos de uma forma geral devido ao fato dessa compulsão pelos jogos de azar”.

COMO DIAGNOSTICAR A LUDOPATIA

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As causas segundo o psiquiatra Didimo Dinis Maltezo podem ser genéticas, ambientais ou psicológicas. “Genéticas quando há um histórico familiar de pessoas que fazem parte desse círculo familiar, e já tiveram problemas gerados por compulsão por jogos de azar. Na parte entre os fatores ambientais, está a pessoa que, por exemplo, já conviveu com outros, ou seja, se expondo a jogos de azar desde muito cedo, gerando essa pressão social para jogar”, explica o médico.

Por fim, os fatores psicológicos que podem estar relacionados a problemas psiquiátricos ou psicológico já prévios: Por exemplo, uma pessoa que tem transtorno de humor ou ansiedade, depressão, entre outros. 

TRATAMENTO 

O médico orienta que tratamento da ludopatia consiste em terapia cognitiva comportamental que irá identificar e mudar os padrões de pensamento e comportamento desse indivíduo. “Terapia de grupo, havendo um suporte e compartilhamento de experiências com pessoas que já sofrem desse mesmo problema”, indica. 

Medicamentos também podem ajudar nesse aspecto e podem ser usados para tratar problemas associados a ludopatia que são quadro de ansiedade, de transtorno de humor ou depressão. 

APOIO

O psiquiatra incluiu um outro ponto importante que é o apoio, ajudar a pessoa encontrar apoio e o recurso para superar esse transtorno. “A prevenção é outro fator de suma importância e deve ser abordado sempre quando nos deparamos com a situação de pessoas que sofrem com a ludopatia. Entre eles está a conscientização, sempre informar essas pessoas os riscos e consequências desse transtorno, estabelecer limites e controlar o acesso a jogos de azar”.

Oferecer recursos para que pessoas com problemas de jogo possam aderir e consequentemente se sentir amparada para que possa superar esse problema. 

MEDICAÇÃO

Segundo o profissional da psiquiatria, entre os medicamentos, que de uma forma geral que pode implementar num tratamento farmacológico estão os antagonistas opioides. “Um exemplo mais comum e corriqueiro é o uso da Naltrexona, podemos támbem usar os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, os ISRR, tipo Fluoxetina, Cefalexina e, em alguns casos, dependendo do transtorno associado a ludopatia, estabilizadores de humor e antipsicótico atípicos”.

O médico ressalta que é importante notar que a eficiência desses medicamentos pode variar muito de pessoa para pessoa e que é fundamental consultar um profissional de saúde para determinar o melhor tratamento. “Além disso, a terapia cognitiva comportamental e a terapia de grupo são abordagens eficazes para tratar a ludopatia”, concluiu. 

 Por Edmilson Rodrigues