Correio Central
Voltar Notícia publicada em 25/06/2018

Redes sociais popularizam a ‘microtraição’

A microtraição, nome dado a esses comportamentos, tem contribuído para colocar um ponto final em muitos romances.

A designer Hellen Miriane, 30, terminou um relacionamento de quase dois anos após sucessivas “microtraições”. “Um dia, o Tinder sinalizou enquanto estávamos jantando. Na hora ele apagou o perfil, mas não excluiu os contatos que havia adquirido ali. A microtraição é tão grave quanto a ‘macrotraição’, porém é mais sutil. A gente demora a compreender a gravidade e tomar medidas a respeito”, diz ela.

Curtidas em fotos de ex-namorados (as), manter perfis ativos em aplicativos de namoro mesmo estando em uma relação e enviar mensagens de texto ou manter contato com uma pessoa na internet sem o conhecimento do parceiro (a) são atitudes com potencial perturbador para um relacionamento. A microtraição, nome dado a esses comportamentos, tem contribuído para colocar um ponto final em muitos romances.

Pesquisa com 6.894 usuários dos sites de relacionamento Victoria Milan e Next Love listou dez exemplos de microtraição e perguntou às pessoas o que elas consideravam infidelidade. Para 83% dos entrevistados, enviar mensagens de texto com conteúdo sexual para alguém fora do relacionamento é traição, assim como mandar nudes para alguém que não seja seu parceiro (88%) – situações consideradas microtraições.

Segundo a psicóloga especialista em sexualidade humana, Sônia Eustáquia da Fonseca, microtraição, porém, é “um nome bobo”. “Curtir e seguir alguém não significa trair. O que existe são tipos de infidelidade: emocional, omissão, deslealdade. Ninguém é obrigado a ficar em plenitude de idolatria”, diz.

Segundo Sônia, trair é subjetivo: muitas vezes o que é traição para um não é para o outro. “Traição é quando um fura o combinado. Para um pode ser traição financeira esconder quanto ganha, ou quando a mulher compra um sapato mais caro e fala que custou mais barato”, cita.

Depois que a relações públicas L.K., 27, descobriu que o namorado curtia páginas de adolescentes de biquíni, a relação mudou. “Achei bem ‘paia’ e fiquei chateada, dei ‘bafão’. Comecei a ficar com isso na mente. Fuçando, descobri um perfil fake onde ele incorporava uma pessoa de uns 19 a 22 anos e interagia com outras mulheres dessa idade”, conta. Depois da descoberta, L.K. ficou mais insegura. “Ele conseguiu disparar todos os meus alarmes e minha ansiedade agravou-se para a síndrome do pânico. Tive a nítida sensação de estar sozinha e sem controle de absolutamente nada na vida”, lembra.

Para ela, a microtraição não é menos grave. “Quando é com a gente, temos que colocar tudo na balança. Aí a gente tende a agir com mais indulgência e considerar que a micro pelo menos não foi a real. A micro tá na palma da mão, e, teoricamente, ninguém precisa saber. Eu classifiquei meu caso como uma experiência de traição de confiança, não necessariamente de chifre”, afirma.

A psicóloga diz que esse sentimento de estar sendo traído em função de uma série de ações aparentemente pequenas, que poderiam indicar que o parceiro(a) está focado (a) emocional ou fisicamente em alguém fora de seu relacionamento, está ligado a insegurança, baixa autoestima e aos níveis de expectativa e idealização que a pessoa faz de sua relação e até de posse do outro. “Se eu amo, eu dou liberdade; aliás, amor é liberdade”, diz.

Desconforto com quem curte tudo que ele posta

Curtidas exageradas de uma pessoa específica são exatamente o que incomoda Luiza, 24, do blog Casal Mil, junto com o marido Mateus, 33. “Tem uma pessoa que acompanha nossa vida, está sempre verificando os stories, e eu fico extremamente incomodada com a situação”, conta. Para não deixar a situação afetá-los, porém, os dois tiveram que conversar a respeito. “Decidimos que o melhor a fazer é não fazer nada. A gente decidiu expor nossa vida e nosso relacionamento, então estamos sujeitos a isso”, conta.

Além do perfil profissional em comum, o casal diz que cada um mantém seu perfil pessoal. “A gente até tem aceso ao telefone do outro, a digital é compartilhada, mas a gente não pega o telefone e respeita muito a individualidade, porque o princípio tem que ser o da confiança. Se não tem, nem existe relacionamento”, diz Mateus.

A autônoma M.M., 27, também lida de outra forma com essas situações e não liga se o namorado segue perfis de meninas desconhecidas no Instagram simplesmente por achá-las bonitas ou fazer amizades com pessoas pelo Twitter, por exemplo. “Prefiro que ele faça na minha cara do que pelas minhas costas. Não é porque não tá dando like que não está vendo e curtindo na vida real”, diz. Para ela, não existe microtraição porque não existe microconfiança. “O negócio é que, para a pessoa descobrir essa tal microtraição, ela tem que ser bem invasiva”, afirma.

Para a psicóloga Sônia Eustáquia, o comportamento no ambiente virtual deve ser igual ao do dia a dia. “As pessoas têm que procurar manter em dia a autoestima e partir do pressuposto de que o parceiro já fez sua escolha, independentemente de estar ‘curtindo’ alguém”, diz.

Minientrevista

Jhonatan Miranda
Psicólogo clínico e psicanalista


Existe microtraição?

Falar sobre microtraição me parece ter pouca novidade no que diz respeito aos desejos e anseios humanos. Aproveitando o romance “Breve Romance de Sonho”, de Arthur Schnitzler, de 1926, e ouvindo como as pessoas falam em análise sobre suas inseguranças nos namoros e nos casamentos, posso afirmar que o ciumento sempre se alimenta de microtraições. Todos esses indícios, os detalhes que entregariam os verdadeiros sentimentos devassos do outro, servem para confirmar aquilo que o ciumento sente.

O que você destacaria de novo nesse debate?

As maneiras como as pessoas vivenciam o ciúme nas relações contemporâneas. A virtualidade das redes sociais cria um ambiente em que sentimos a obrigação de mostrarmos prazeres o tempo inteiro. Por outro lado, há uma vigilância sobre eles. Vivemos em um constante estado de alerta sobre o que está sendo publicizado e nos sentimos sujeitos a ter nossos desejos escancarados nas telas. Esse risco se coloca também sobre a intimidade de quem nos relacionamos. O que quer dizer aquele like, aquela risada ou aquele coração? Será que ela/ele está deixando suas vontades aparecerem demais? Abre-se o precipício para o ciúme pular de ponta. E, assim, qualquer detalhe, qualquer suposta microtraição confirma que estamos excluídos desse mundo dos prazeres. Entendo, portanto, que o que se chama de microtraição não é nada mais que a manifestação de desejos que existem e, de diferentes modos, sempre existiram nas relações amorosas, e se tornaram mais palpáveis e ameaçadores.

Mas traição na internet também não é novidade.

As traições virtuais surgiram com a própria possibilidade de socialização pela internet, basta que nos lembremos dos antigos chats. O que pode ter aumentado ou mesmo ter sido transformado é a facilitação de as pessoas se conectarem umas às outras e viverem o que, no passado, estava mais restrito ao âmbito dos sonhos, da imaginação. A virtualidade da internet é hoje uma facilitação para que as pessoas possam manifestar seus interesses mais íntimos sem muito compromisso com a realidade. Mas fora da internet (as relações continuam a existir fora da internet!) temos diversos tipos de comportamentos que, conscientemente ou não, carregam nossos desejos para além dos nossos compromissos amorosos, isso sempre existiu. Quando e se esses comportamentos se tornam traição, é outra história.

Existem tipos de traição, assim como ‘inveja branca’ ou ‘mentira boa’?

A traição é sempre um risco mais ou menos apaziguado ou intenso em todas as relações, não apenas nas amorosas. Ao mesmo tempo, ela é um risco fundamental, na medida em que afirma a individualidade das pessoas e nos lembra que ninguém é capaz de nos garantir completude, nem nunca seremos para o outro o bastante. Pensando assim, uma ‘traição boa’ é aquela que acontece sem ultrapassar os acordos feitos dentro das relações.

O nome “microtraição” pode abrir brechas para relacionamentos abusivos?

Sim. Acredito que o nome busca ampliar o escopo da infidelidade colocando um rótulo prévio em pequenas atitudes aumentando o policiamento da intimidade alheia e a sensação de descontrole entre as pessoas. Esse rótulo agrava esse contexto já paranoico e em nada ajuda o estabelecimento de limites, respeito, autonomia etc. Pelo contrário, chamar de microtraição determinados comportamentos identificando-os previamente como infidelidade, é uma forma fracassada de negar que o outro também deseja e pode desejar para além de mim mesmo. Não há ninguém que possa suprir por completo nossas vontades. E isso vale para todo mundo.

Porque a monogamia fiel ainda é vista como ideal?

Os relacionamentos monogâmicos se sustentam sobre a configuração social baseada na família nuclear, e são vários os elementos que determinam o peso que esse modelo possui ainda hoje. Porém, ele não é único e invariável. Pelo contrário, temos visto cada vez mais diversas formas de amor, todas elas válidas. Vale dizer que o ideal de monogamia tradicional nunca foi fiel (e difícil dizer se sempre foi heterossexual de fato). Sabemos como a chamada “tradicional família mineira”, muito religiosa, sempre foi marcada pela presença da amante, da prostituta e dos mais diversos tipos de adultério. O relacionamento a dois hoje tem se ampliado a muitas formas de relação “aberta”. É um engodo acreditar que, mesmo na relação aberta mais funcional, mais pacificada, prazerosa e respeitosa, não haja também um lugar para se sentir traído.

Autora: LITZA MATTOS

Fonte: O Tempo