Correio Central
Voltar Notícia publicada em 29/12/2016

Ouro-pretense que ficou preso nas Bahamas relata da prisão, o sofrimento que passou e à humilhação sofrida

Antonio Galdino dormia no chão numa cela jaula, comia no chão, fazia necessidades num balde e era humilhado o tempo todo

O desejo de chegar aos Estados Unidos a qualquer preço pode custar caro para muitos brasileiros e, em alguns casos, custar até a própria vida.

A promessa de entrada pela Florida é uma alternativa que não se concretiza, pois é oferecida por uma organização criminosa que se beneficia do dinheiro da vítima que na desventura carrega todo o dinheiro na cueca, situação o que o deixa à mercê da sorte, e após ser capturado nas Bahamas passa por condições desumanas, humilhantes e terríveis.   

Quem denuncia é Antônio Galdino Neto, de 27 anos, que mora em Ouro Preto d’Oeste, ficou preso em 2013 nas Bahamas e acompanha com atenção o drama do sumiço de brasileiros que desapareceram desde o dia 6 de novembro na mesma rota que ele fez. Galdino conseguiu fazer algumas fotos escondidas que revelam o interior da prisão.

Galdino está revivendo todos os momentos terríveis que passou durante 20 dias numa prisão insalubre de Nassau vivendo em condições desumanas e sofrendo todo tipo de humilhação. A pior situação é dos presos cubanos que não podem regressar para seu país, e permanecem presos por anos; em sacrifício, as mulheres raspam a cabeça em protesto, os homens se mutilam e introduzem cadeados e arames na boca.

Galdino contou com a sorte de ter uma tia morando em Boston (EUA) que pagou a quantia de 2 mil dólares - metade de fiança e metade para o advogado bahamense - para que ele fosse liberado, e conseguiu voltar para Rondônia. Sem contar o recurso que a tia dispôs, Antonio Galdino gastou 7 mil dólares que foram entregues a um coiote de Vitória, no Espírito Santo, valor convertido na época em real que dava em torno de R$ 27 mil.

A viagem com o sonho de trabalhar nos Estados Unidos como carpinteiro começou no dia 7 de março pelo aeroporto José Coleto de Ji-Paraná com destino a Guarulhos (SP), e como primeiro destino o ouro-pretense permaneceu 1 mês e 15 dias no Panamá, depois seguiu para as Bahamas.  

Antonio Galdino foi preso no dia 25 de abril em Nassau e depois dos 14 dias que o carimbo no seu passaporte venceu, permaneceu detido até o dia 6 de junho juntamente com dois rapazes de Presidente Médici, um de São Francisco do Guaporé, e uma garota que morava em Cáceres, no Mato Grosso. Na prisão, ele narra, as celas eram espécies de jaulas sem energia e água corrente, os guardas truculentos e violentos espancavam e torturava quem reagia ou reclamavam, todos tinham que ficar nus e permaneciam algemados em dois, dormiam no piso, e se alimentavam precariamente uma vez por dia.

De acordo com Antonio, ao chegar a Nassau, ele foi deixado em uma casa juntamente com os amigos de viagem, tinha também uma mulher de Ji-Paraná e imigrantes de outras nacionalidades durante 20 dias, seis dias a mais que o prazo de validade do prazo de permanência do passaporte. No vigésimo dia em Nassau, a polícia da imigração bateu à porta da casa, e começou o drama de Antonio Galdino e de seus companheiros de viagem.  

Os clandestinos detidos recebem um tratamento humilhante e são submetidos a uma vida segregada do básico para a sobrevivência, e segundo Antonio, eles não tomavam banho regularmente, faziam as necessidades em um balde, e tinham uma alimentação diária de péssima qualidade e suficiente para manterem-se de pé. “Um dia antes de a gente ser preso a moça que mora em Ji-Paraná não aguentou a pressão e veio embora, a gente achou a atitude dela inocente em desistir e perder o sonho, mas ela estava certa porque veio embora e hoje tem família e filhos e não passou o que nos passamos”, conta Antônio.

Antonio Galdino diz que procura contar sua experiência para impedir que outras pessoas venham cair nessa armadilha pensada por pessoas inescrupulosas que fazem parte dessa rede que ele considera uma organização criminosa. “Eu não sabia se meu corpo estava sujo, se era minha alma e o que estava acontecendo pra eu estar lá naquela cadeia. Acordava de dia, de madrugada, sem saber do mundo lá fora. Sempre fui uma pessoa festeira que gostava de dançar e sair com os amigos, sempre livre”.

O jovem de Ouro Preto aprendeu com essa experiência a dar valor às pequenas coisas da vida, trabalha num posto de combustíveis e está levando a vida numa boa, hoje com muito mais alegria, e sempre aconselhando quem fala em se aventurar para os Estados Unidos. “Procurem estar perto do seu pai, de sua mãe e da sua família porque um dia eles se vão e você chegar aos Estados Unidos não vai pagar o preço de ter sua família de volta. É ruim de emprego, mas procura dedicar, trabalhar e levar uma vida feliz”, orienta Antonio Galdino.

 

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Fonte: EDMILSON RODRIGUES